Entre perdas e milagres

Fiquei uns dias sem escrever porque embora eu tenha melhorado, tive que lidar com circunstâncias difíceis ligadas ao Covid-19, inclusive a perda de uma pessoa próxima com uma forma severa da doença. Acompanhei de perto todo o processo, do começo dos sintomas até sua admissão no hospital, e as duas semanas que passou na UTI. Suas confusas mensagens com hipóxia no WhatsApp antes da intubação, e seu pedido que ‘Virna the medic’ cuidasse da comunicação com a equipe médica. A angústia da família a cada dia, de sua esposa que ficou isolada em casa, se recuperando.

O contato com o hospital se dá apenas por telefone. O número da UTI está sempre ocupado ou ninguém atende. As informações geralmente se dão através da equipe de enfermagem. Assim espera-se vinte e quatro horas para ouvir um “estável no respirador” ou algo do tipo. Ou um excesso de detalhes médicos que deixam a família apreensiva. Nunca me senti tão impotente como médica de longe, e sei que o sentimento de impotência é universal neste momento para profissionais de saúde. Porém em alguns momentos tive que me fazer ouvida, e exigir informações mais precisas diretamente de um colega. Até na comunicação há ecos do isolamento. Sinto muito pela pessoas que estão internadas no momento, e por aquelas que estão lidando com perdas duras causadas por este virus horrendo. Há o lado negro dos respiradores também, e as sequelas da recuperação. Não resta apenas sobreviver milagrosamente a uma UTI.

Escuto cética os entusiastas da hidroxicloroquina, sobretudo os meus colegas brasileiros. Alguns deles, diga-se de passagem, entusiastas teóricos, de especialidades distantes do fronte, alguns isolados em seus apartamentos morrendo de medo de contrair o vírus. Os britânicos não usam hidroxicloroquina. Eles estão certos. Não há evidências. O CDC retirou envergonhado a droga arduamente defendida por Trump das recomendações no seu site. Um artigo interessante no jornal The Guardian comentava que Nero também surgiu com uma droga milagrosa durante uma epidemia em Roma. Uma metáfora excelente. 

Não é que eu seja contra tentativas, mas não vejo muito cientificismo neste “milagre”. O que vejo são pesquisas minúsculas com uma metodologia discutível, e relatos anedóticos compartilhados em corredores de hospitais e aulas de última hora. É preciso ir com calma, e sabemos que no Brasil principalmente há interesses politicos por trás desta jogada. O número de infecções e mortes prossegue em velocidade assustadora no mundo inteiro. Há outras medicações em pesquisa contra a replicação viral que parecem mais promissoras. Penso que de repente poderia-se tentar usar Ayahuasca para Covid-19 no Brasil. Não sei porque, mas tenho mais fé no Ayahuasca que na hidroxicloroquina. Deve ser o meu lado espiritualista brasileiro. 

Talvez eu tenha me tornado cínica depois de assistir o primeiro funeral online pelo Zoom, algo realmente surreal. É um amparo de qualquer forma, mas até recentemente algo inimaginável. Assim, ando sem paciência para chatos que vem falar com você com pseudo-compaixão mentirosa para falarem de si, de seus pequenos dramas histriônicos. Ando também com tolerância zero para covidiotas covardes trancados em suas casas com sintomas imaginários e auto-centrados, compartilhando artigos tão imbecis como eles que leem na mídia, e se julgando autoridades no assunto. Um pouco de álcool gel no córtex faria bem. Aplausos para os que têm tomado decisões mais produtivas e criativas em suas vidas nesse momento, apesar da crise.

Sobre a pessoa próxima que morreu. Era um homem extraordinário e generoso. Teve uma bela vida. Tinha 75 anos e era um atleta. Lutou corajosamente no respirador, mas chegou a sua hora. A morte também faz parte da vida. Já faz mais de quinze dias que contraí o virus e estou quase sarada. O sentido de gosto e olfato voltaram. Estou viva. Minha disposição voltou. Cozinhei um belo prato, tomei meia garrafa de vinho, e ouvi canções antigas, minha forma de lidar com a perda de um venusiano que sabia viver e gostava das boas coisas da vida. Pensei no famoso trecho de Julius Caesar, de William Shakespeare, ‘a coward dies a thousand times before his death, but the valiant taste of death but once’. 

Virna Teixeira 

10 respostas para ‘Entre perdas e milagres

  1. Emocionante seu desabafo Dra. Sempre pensando nas pessoas,isso e ser um ser humano. Me lembro de quando trabalhava no HC. Diferente de todos os médicos que conheci. Parabéns ,e que Deus a proteja sempre. Meu abraço.

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  2. Ainda impactada com essa leitura.
    Muito obrigada por compartilhar.
    Perdi um paciente de 33 anos pela leucemia e seu velório também foi on line.
    Chocante a desumanização e isolamento que essa doença causa.
    Feliz em vê-la bem. Abraço!

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    1. Muita desumanizacao, Elodie. E as pessoas continuarao sofrendo ao longo de sua recuperacao da doenca. Sinto muito pelo teu paciente. As pessoas com outros problemas serios de saude estao sofrendo muito neste momento tambem. Um abraco

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  3. Virna e sua verve!
    Sempre tocante e precisa.
    Sou testemunha virtual desse processo de doenças na família, e pude conhecer a faceta abnegada da nossa poeta quando cuidou dos seus. Tudo muito Pascoal neste pandemônio, quis dizer pandemia.

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