Restrições

Passar mais de dois meses trancada dentro de casa não é nada fácil. Em alguns lugares o isolamento começou há meses, em outros a experiência é mais recente. As restrições são mais ou menos severas, seguindo a confusa cabeça dos governantes e cientistas neste momento, mas a sensação de confinamento é universal.

Em alguns lugares, como no Reino Unido, o isolamento começa a ser liberado aos poucos. Esta abertura gera um certo alívio, afinal está todo mundo de saco cheio, mas há também a preocupação de as coisas possam piorar. Na prática é tudo muito estranho, e ninguém entende nada. Nevermind. O trânsito tem aumentado. No final de semana há mais gente nas ruas e nos parques. Se faz sol há pequenos aglomerados de famílias fazendo piquenique. Se antes fuzilavam você com os olhos a 1.99 metros de distância, agora muitos não dão a mínima para os corpos que passam correndo ou pedalando. 

Vejo que os bancos de parques não estão mais selados. No entanto há placas indicando que os banco não foram desinfetados, mas você pode sentar-se ali, e compartilhá-lo apenas com membros da sua família. Realmente estamos avançando com segurança, que bom. Já abriram os clubes de tênis e golfe, para alívio da nação. Dois esportes para os quais não tenho o menor talento. 

Ainda há muito a liberar e não se pode ter expectativas. Viva um dia de cada vez, como no AA. Aliás a possibilidade de sentar-se num pub para um drink continua bem remota. Programar uma pequena viagem e hospedar-se num hotelzinho pior ainda. Talvez em julho. 

Creio que somos bombardeados com noticias de Covid-19 na mídia, ou com uma atividade frenética online de lives e programações e cursos de toda sorte para esquecer o que perdermos lá fora. Para esquecer o tanto que tem se perdido e não são apenas corpos, são tantas coisas, mas tantas. Só de começar a enumerá-las e de pensar em quando irei ver pessoas queridas que estão tão longe me dá um desalento profundo. 

Esta semana eu aguardava um ônibus gratuito que estava muito atrasado, por conta do distanciamento social. Desisti da espera e fiz uma longa caminhada por Fulham. Eu ia chegar tarde no trabalho de qualquer jeito. Eu geralmente pedalo para o trabalho e escuto música, o que me distrai, mas ando com uma cervicalgia há dois meses, e a tensão só piora, ter que carregar mochila todo dia para me trocar. Ando carregando muitos pesos nas costas ultimamente. A metáfora é clara.

Caminhar tem outro ritmo. Caminhar pela cidade vazia, como uma estranha flâneur. Contemplar uns solitários balões de aniversário pendurados numa janela. Passar por lugares onde estive com outras pessoas, onde me diverti tanto. Pensar no imenso impacto financeiro de ver o comércio fechado, a estação de metrô desolada. Tive até nostalgia das mensagens de áudio que enviava para um amigo cearense neste trajeto, quando descia do tube. Nossas conversas matinais entre Inglaterra e Alemanha antes de enfrentar o dia, sobre temas sérios e deliciosamente banais. 

Esta perda de liberdade, estas perdas todas de pequenas e grandes coisas, estão tendo um intenso impacto na saúde mental das pessoas. Reações agudas de estresse, crises de pânico, hipocondrias agudas e por aí vai. Emoções extremas que para muitos parecem ser inéditas, descontroladas. É que sufocados por outras restrições de suas vidas, e sem válvulas de escape a cabeça sofre. E o corpo é que paga, como diz uma música de António Variações. Há para muitos a condição de ser estrangeiro, o medo de adoecer em outra língua, de morrer em outro país. De repente me vi sendo procurada por brasileiros para consultas online. Ser escutado e cuidado na língua maternal é um conforto. Eles têm toda a minha empatia neste momento.

E por falar em conforto, este também é um momento excelente para sair das zonas de conforto. Uma boa estratégia para não adoecer. Nossa tolerância nunca esteve tão baixa. Os infernos pessoais foram destrancados dos seus sótãos neste confinamento. Não há rotas de fuga, a não ser o escapismo do álcool e substâncias ilícitas (para uns poucos) talvez, que é simplesmente temporário. O momento é brutal. A trilha sonora urbana é a sirene da ambulância nos lembrando o tempo todo sobre o que está acontecendo lá fora.

Fico pensando em como lidar com isto. Uns dias atrás vi algo curioso. Uma matéria antiga sobre aulas de ioga em catsuitsde látex em Berlim. Acho que cairia muito bem agora. Para lidar com estas restrições precisamos ser flexíveis, saber-se mover com ginga, e dar uns pulos de mulher gato se for preciso. Empregos insatisfatórios, relacionamentos ruins, gente oportunista, desrespeito, desprazer de qualquer natureza são muito difíceis de aguentar agora. Restrição me faz pensar também em Saturno, o senhor do tempo. Reduz tudo ao essencial. 

Eu nunca fui uma pessoa muito doméstica, e sempre me desloquei muito. Meus pais separaram cedo, cresci entre duas casas. Sinto falta da minha vida social e ando cansada do trabalho, das adaptações do trabalho. Cozinhar de vez em quando é um prazer, mas tenho dificuldade com a rotina, com as rotinas à minha volta. Apelo para a criatividade, das receitas exóticas às raves online de peruca, mas cansei. Ando numa fase marcial, meio raivosa. 

Sonhei que morava numa casa de janelas trancadas com um escritório e um auditório. A casa era ampla, mas não tinha área externa. É hora de me virar dentro dessa casa interior. De escutar um som pesado, um techno from hell, virar ninja numa roupa de borracha e golpear contra estas restrições interiores. Quem sabe eu tenha algo para aprender com esse tal de Saturno. Ou será com Marte.

Virna Teixeira

(Foto: Betsy Johnson, self-portrait para Office Magazine NYC

Retratar a realidade

Retratar a realidade

Resolvi fazer uma pausa do blog enquanto reajustava minha volta ao trabalho. Estava cansada de noticias, da troca de artigos e novas experiências no manejo ao coronavirus entre colegas médicos, de webinars e coisas do gênero, que sem duvida são necessários neste momento. Todos querem tornar-se especialistas em Covid-19, armar-se contra a pandemia. Mas este excesso de informação científica, tanto para profissionais de saúde quanto para o publico geral também é prejudicial e pode causar muita ansiedade. Eu me pergunto se não é uma tentativa obsessiva de controlar o que persiste, neste momento, incontrolável. Para alguns torna-se um ritual de TOC, simbolizado pela lavagem excessiva das mãos. 

Leio num e-mail do NHS ‘o que temos neste momento para combater o coronavirus é oxigênio’. Concordo. Outro dia encontrei no Instagram uma foto de uma drag queen com um catsuit futurista azul celeste apertando um spray em direção ao céu numa paisagem bucólica. Miss Oxygen. Ela me fez rir. Sim, precisamos arejar nossas mentes. A camada de ozônio está felizmente aumentando. Que sirva de exemplo. 

Eu trabalho com saúde mental, e também preciso cuidar da minha. Sou humana e saí de uma saison en corona enfer muito recentemente. Tive sintomas que me assustaram, isolada dentro de um quarto por dias, e cheguei a ligar para uma ambulância. Tive que lidar com outros casos de Covid-19 na família, e dar algum tipo de suporte médico também (sou apenas uma médica). Perdi meu sogro bruscamente para este vírus maldito. Ele era uma pessoa feliz, saudável, fazia muito por sua comunidade e era um marido, pai e avô dedicado. Há pouco mais de um mês pedimos o mesmo prato num restaurante, quando as primeiras mortes eram anunciadas na mídia. Ele fez um comentário irônico, com o seu senso de humor peculiar. Fazia shows de mágica para as crianças. Agora esse disappearing act! Hei de reencontrá-lo um dia escondido dentro do Musée de la Magie em Paris com algum truque novo. Coisas que rumino enquanto pedalo para o hospital.

No trabalho anunciaram que teremos que usar uniformes. Camisa polo e calças compridas. As cores serão variadas segundo a função. Para os médicos escolheram a cor preta. Uma espécie de mortalha oficializada, só pode. Como se já não fosse estranhíssimo interagir de máscara com os pacientes numa enfermaria psiquiátrica. Adoro afirmar a individualidade nas minhas roupas. Planejo usar meus turbantes e meus grandes colares e brincos de acrílico com cores bem vivas. Eu não vou aceitar passivamente essa escuridão desumanizante, eu vou me rebelar de alguma forma.

Ontem vi um programa novo excelente no Channel 4 sobre como os artistas estão lidando com o isolamento, com o artista inglês Grayson Perry, que é também o crossdresser mais famoso da Grã-Betanha. Ele não estava vestido como seu alter ego Claire. Estava lá como Grayson apenas, com roupas de drab sujas de tinta, e durante o programa desenhou sua mulher, e depois pintou o desenho numa prato de cerâmica. Disse que se sentiu vulnerável e fora da sua zona de conforto ao fazer aquele portrait em público. O programa teve a participação de artistas diversos do país, todos mostrando portraits de quarentena. Grayson Perry dizia como estamos todos feridos, de alguma forma, e precisamos retratar este momento.

A arte é uma garantia de sanidade, como disse Louise Bourgeois, e permite alguma forma de mágica. Nesse momento me sinto vulnerável para escrever um poema, talvez por usar uma outra técnica para escrever poesia, emocionalmente mais laboriosa, mas me alivia retratar minha realidade com as palavras. Há muitas mortes e perdas por aí. Precisamos mais que nunca de um pouco de imaginação e reinvenção para resistir, não podemos deixar que esse vírus nos destrua, que danifique a nossa saúde mental.

Ainda sobre os retratos. Eu estava há pouco admirando no computador um portrait recente de um artista do norte da Inglaterra no site da Saatchi Gallery. A tela mostra em primeiro plano uma menina séria e andrógina, de cabelos escuros e curtos, e um misterioso cobertor colorido ao fundo (seria um objeto transicional deixado para trás?) Eu gosto da expressão desta menina, da força do seu olhar. Das discretas pinceladas de dourado no céu, de pequenas áreas luminosas no seu rosto. Uma espécie de jovem anima alquimíca, desafiando enigmaticamente esta crise. Senti uma espécie de alento esta manhã.

Virna Teixeira

Safe distance

I’ve gone back to work after almost three weeks at home. Things changed quickly during that period. The streets are deserted. In the psychiatric unit where I work, there are very few patients and activities, and safety measures are in effect. There’s free food in the canteen for the staff at the NHS hospital next door. Long lines to get your hot lunch, and I was heartened to see so many people together. The macaroni and cheese was decent.

The underground is still running. The trains come every 20 minutes. At the station entrance, signs and messages repeat that transport is for essential workers only, and the rest of the population must remain at home. The station is deserted at 5:00 PM. I can see just two other individuals, waiting far from me on the platform. The passenger car is mostly empty, a sign that people are respecting the guidelines.

Right now it is easier to find people in green areas or parks. The British government authorizes the practice of some kind of outdoor exercise per day, as long as social distancing of 2 meters is maintained. This is an excellent idea. It’s good for physical and mental health, especially with the return of the sun after a long winter. Benches and playgrounds have been cordoned off to prevent contagion. I see a very odd woman in a jogging suit and mask, using a bench to exercise with baby wipes in her hands. In general, people respect the recommended distance — some even shout a warning if you are distracted and approach within 1.95 meters.

A poet who lives in Madrid tells me that he spends the day locked up in his kitchenette in the center of the city, usually asleep, because he hates live online events and activities. He tells me about the repressive of policemen with machine guns who control trips to the market and inspect “essential purchases”. He’s disgusted that people still applaud the police every day at 6:00 in the evening. An hour later they applaud the good behavior of kids during the quarantine. Then they applaud the garbage collectors.

Today they announced that the quarantine here will extend for another three weeks, as we expected. The UK peaked at almost a thousand deaths per day last week, but hospital admissions apparently began to stabilize. The NHS controls people’s access to hospitals by phone. It’s community-centered medicine, not patient-centered. You don’t do a lot of testing here, like you do in Brazil, and you don’t use hydroxychloroquine, but case management is certainly easier and more consistent, because everyone uses the NHS.

When I say that I’m fine, lay people and pessimists send me recently published scientific articles or comment on the risk of my “not developing” immunity. Recent articles and studies (with methodological criticisms) on the subject are leaked to the press. Results are distorted, and anxious people are frightened. Yes, immunity is not linear, there is a variable window of time for the development of antibodies, the tests are not 100% effective, and so on. If there is a very rare reinfection, I think it will be mild. I repeat my litany. Some people are relieved. What will it be like when so many health professionals are infected, recover and go back to work all over the world? Only time will teach us about late immunity to COVID-19. I can’t live in a plastic bubble like that 70s movie with John Travolta. Life goes on.

I come home and spend time with my eight-year-old daughter. On Sunday she was upset and complained to me: “nobody told me it was Easter”. Preoccupied with the pandemic and matters of life and death, I forgot the date. What are holidays now? On the way home, I stopped at the supermarket and bought a chocolate egg (at a 50% discount) to redeem myself. The shelf was still full. I suspect that sales of chocolate Easter eggs have not been very promising this year.

After eating her chocolate, I asked my daughter what she thought about the quarantine. She said there were positive things. It’s good not to go to school, to spend more time with her mom and dad, to watch more TV and use the computer and apps. She’s well-informed. She checks coronavirus news on the BBC site for kids. Suddenly, she said: “the world used to be one thing, and now it’s another. Now it’s a world of headaches”. I asked what she’s been missing during the quarantine. Playing outdoors with her friends. Hugs. She loves to hug. Really, hugging is wonderful. It releases endorphins. What will become of physical proximity in the near future, when this isolation ends?

Virna Teixeira

Translated by Chris Daniels

A distância segura

Voltei ao trabalho após quase três semanas em casa. As coisas mudaram rapidamente neste período. As ruas estão desertas. Na unidade psiquiátrica onde trabalho há um número bem reduzido de pacientes e atividades, e medidas de segurança em curso. Há comida de graça na cantina para os funcionários do NHS no hospital ao lado. Uma fila longa no almoço para receber a sua quentinha, até me alegrei de ver tanta gente junta. O macaroni cheese estava decente. 

O metrô ainda funciona, agora passa um trem a cada 20 minutos. Na entrada da estação cartazes e mensagens repetem que o transporte é para os trabalhadores essenciais, o resto da população deve permanecer em casa. A estação está deserta às 17 horas, vejo apenas mais dois indivíduos aguardando ao longe na plataforma. O vagão também está bem vazio. Sinal de que as pessoas estão respeitando as orientações. 

Neste momento é mais fácil encontrar gente em áreas verdes ou parques. O governo britânico autoriza a prática de algum tipo de exercício ao ar livre por dia, com distância social de 2 metros. Uma ideia excelente, que faz bem à saúde física e mental, principalmente com o retorno do sol após um longo inverno. Os bancos e os playgrounds foram selados para evitar contágios. Vejo uma mulher estranhíssima com roupa de jogging e máscara, usando um banco para fazer exercício com lenços higiênicos nas mãos. Em geral as pessoas respeitam a distância, alguns até gritam se você estiver distraída e se aproximando a 1.95 metros. 

Um poeta que mora em Madrid me conta que passa o dia trancafiado em sua quitinete no centro da cidade, geralmente dormindo, pois detesta lives e atividades online. Ele me conta da repressão de policiais com metralhadoras que controlam idas ao mercado e fiscalizam as “compras essenciais”. Fica revoltado pois as pessoas ainda aplaudem a polícia todo dia às 18h. Uma hora depois aplaudem o bom comportamento das crianças durante a quarentena. Em seguida aplaudem os “sanitários”. 

Hoje anunciaram que a quarentena aqui se estenderá por mais três semanas, o que já era esperado. O Reino Unido atingiu um pico de quase mil mortes por dia na semana passada, mas ao que parece as admissões em hospitais começaram a estabilizar. O NHS controla o acesso das pessoas aos hospitais por telefone. É uma medicina centrada na comunidade e não no paciente. Não se faz montes de exames aqui como se faz no Brasil, e não se usa hidroxicloroquina, mas o controle dos casos certamente é mais fácil e homogêneo, pois todos utilizam o NHS. 

Quando digo que estou bem os leigos e pessimistas me enviam artigos científicos recém-publicados ou comentam sobre o risco de eu “não desenvolver” imunidade. Vazam artigos e trabalhos recentes (com críticas metodológicas) sobre o tema para a imprensa, que distorce resultados e apavora os ansiosos. Sim, a imunidade não é linear, há uma janela de tempo variável para o desenvolvimento de anticorpos, os testes não são 100% eficazes, e por aí vai. Se houver uma raríssima reinfecção, creio que será branda. Repito a minha ladainha. Alguns ficam aliviados. Bom, como seria com tantos profissionais de saúde que se infectam, se recuperam e voltam a trabalhar no mundo inteiro? Só o tempo ensinará sobre a imunidade tardia para o Covid-19. Não posso viver dentro de uma bolha de plástico como aquele filme dos anos 70 que lançou John Travolta. A vida prossegue.

Chego em casa e me ocupo da minha filha de oito anos. No domingo ela reclamou chateada comigo, “ninguém me disse que era páscoa”. Preocupada com a pandemia e com questões de vida e morte, esqueci da data. O que são as datas festivas agora? Parei no supermercado e comprei um ovo de chocolate com 50% de desconto para me redimir. A prateleira continuava lotada. Desconfio que as vendas de ovos de páscoa não foram muito promissoras este ano.

Depois de comer o seu chocolate, perguntei para minha filha o que ela achava da quarentena. Disse que havia pontos positivos. É bom não ir para escola, passar mais tempo com os pais, ver mais TV e usar o computador e os aplicativos. Ela é bem informada e checa notícias sobre o coronavirus no site de notícias da BBC para crianças. De repente, comentou: “o mundo era um e agora é outro. Agora é um mundo de dores de cabeça”. Perguntei do que ela sentia falta na quarentena. De brincar ao ar livre com os amigos dela. De abraços. Ela adora abraçar. Realmente, abraçar é maravilhoso. Libera endorfinas. Que será da proximidade física quando terminar este isolamento?

Virna Teixeira

Between losses and miracles

I didn’t write for a few days because although I got better, I had to deal with difficult circumstances linked to Covid-19, including the loss of a person dear to me who had a severe form of the disease. I followed the whole process closely, from the onset of symptoms to his admission to the hospital, and the two weeks he spent in the ICU. His hypoxia-confused messages on WhatsApp before intubation. His request that ‘Virna the medic’ take care of communication with the medical team. The family’s anguish every day, his wife who was isolated at home, recovering.

Contact with the hospital is by telephone only. The ICU number is always busy or no one answers. Information is usually provided through the nursing staff. So you wait twenty-four hours to hear a “stable on the respirator” or something. Or an excess of medical details that make the family uneasy. I have never felt so helpless as a doctor from afar, and I know that the feeling of helplessness is universal right now among healthcare professionals. However, a few times I had to make myself heard, and demanded more precise information directly from a colleague. Even in communication there are echoes of isolation. I feel sorry for the people who are currently hospitalized, and for those who are dealing with hard losses caused by this horrendous virus. There is the dark side of respirators too, and the aftermath of recovery. It is not just about miraculously surviving an ICU.

I listen skeptically to hydroxychloroquine enthusiasts, especially my Brazilian colleagues. Some of them, by the way, are enthusiastic theoreticians in specialties far from the front. Some of them are isolated in their apartments, scared to death of contracting the virus. The British do not use hydroxychloroquine. They are right. There is no evidence. The CDC, embarrassed, removed Trump’s hard-hitting drug from the recommendations on its website. An interesting article in The Guardian newspaper commented that Nero also came up with a miracle drug during an epidemic in Rome. An excellent metaphor.

It is not that I am against attempts, but I do not see much scientific method in this “miracle”. What I see is a tiny amount of research undertaken with debatable methodology, and anecdotal reports shared in hospital corridors and last-minute training classes. We have take it easy, and we know that in Brazil and elsewhere there are mainly political interests behind this move. The number of infections and deaths continues to rise at an alarming rate worldwide. There are other research medications against viral replication that look more promising. I think that suddenly one could try to use Ayahuasca for Covid-19 in Brazil. I don’t know why, but I have more faith in Ayahuasca than hydroxychloroquine. It must be my Brazilian spiritualist side.

Maybe I became cynical after watching Zoom’s first online funeral, which was absolutely surreal. It is a kind of support, but until recently is was something unimaginable. Anyway, I no longer have patience for boring people who come to you with their lying pseudo-compassion, to talk about themselves, their little histrionic dramas. I also have zero tolerance for cowardly covidiots locked up in their homes with imaginary, narcissistic symptoms, sharing articles as stupid as they are, these ridiculous articles they read in the media, and thinking themselves to be authorities on the subject. A little alcohol gel in the cerebral cortex would do them a world of good. And I cheer for those who have made more productive and creative decisions in their lives at this time, despite the crisis.

About the close person who died. He was an extraordinary and generous man. He had a beautiful life. He was 75 years old, and an athlete. He fought bravely on the respirator, but his time came. Death is also part of life. It’s been over fifteen days since I got the virus and I’m almost healed. My senses of taste and smell returned. I’m alive. My mood has lifted. I cooked a beautiful meal, drank half a bottle of wine, and listened to old songs, my way of dealing with the loss of a wonderful man who knew how to live and enjoyed the good things in life. I thought of the famous excerpt from Shakespeare’s Julius Caesar, ‘a coward dies a thousand times before his death, but the valiant taste of death but once’.

Virna Teixeira

Translated by Chris Daniels

Entre perdas e milagres

Fiquei uns dias sem escrever porque embora eu tenha melhorado, tive que lidar com circunstâncias difíceis ligadas ao Covid-19, inclusive a perda de uma pessoa próxima com uma forma severa da doença. Acompanhei de perto todo o processo, do começo dos sintomas até sua admissão no hospital, e as duas semanas que passou na UTI. Suas confusas mensagens com hipóxia no WhatsApp antes da intubação, e seu pedido que ‘Virna the medic’ cuidasse da comunicação com a equipe médica. A angústia da família a cada dia, de sua esposa que ficou isolada em casa, se recuperando.

O contato com o hospital se dá apenas por telefone. O número da UTI está sempre ocupado ou ninguém atende. As informações geralmente se dão através da equipe de enfermagem. Assim espera-se vinte e quatro horas para ouvir um “estável no respirador” ou algo do tipo. Ou um excesso de detalhes médicos que deixam a família apreensiva. Nunca me senti tão impotente como médica de longe, e sei que o sentimento de impotência é universal neste momento para profissionais de saúde. Porém em alguns momentos tive que me fazer ouvida, e exigir informações mais precisas diretamente de um colega. Até na comunicação há ecos do isolamento. Sinto muito pela pessoas que estão internadas no momento, e por aquelas que estão lidando com perdas duras causadas por este virus horrendo. Há o lado negro dos respiradores também, e as sequelas da recuperação. Não resta apenas sobreviver milagrosamente a uma UTI.

Escuto cética os entusiastas da hidroxicloroquina, sobretudo os meus colegas brasileiros. Alguns deles, diga-se de passagem, entusiastas teóricos, de especialidades distantes do fronte, alguns isolados em seus apartamentos morrendo de medo de contrair o vírus. Os britânicos não usam hidroxicloroquina. Eles estão certos. Não há evidências. O CDC retirou envergonhado a droga arduamente defendida por Trump das recomendações no seu site. Um artigo interessante no jornal The Guardian comentava que Nero também surgiu com uma droga milagrosa durante uma epidemia em Roma. Uma metáfora excelente. 

Não é que eu seja contra tentativas, mas não vejo muito cientificismo neste “milagre”. O que vejo são pesquisas minúsculas com uma metodologia discutível, e relatos anedóticos compartilhados em corredores de hospitais e aulas de última hora. É preciso ir com calma, e sabemos que no Brasil principalmente há interesses politicos por trás desta jogada. O número de infecções e mortes prossegue em velocidade assustadora no mundo inteiro. Há outras medicações em pesquisa contra a replicação viral que parecem mais promissoras. Penso que de repente poderia-se tentar usar Ayahuasca para Covid-19 no Brasil. Não sei porque, mas tenho mais fé no Ayahuasca que na hidroxicloroquina. Deve ser o meu lado espiritualista brasileiro. 

Talvez eu tenha me tornado cínica depois de assistir o primeiro funeral online pelo Zoom, algo realmente surreal. É um amparo de qualquer forma, mas até recentemente algo inimaginável. Assim, ando sem paciência para chatos que vem falar com você com pseudo-compaixão mentirosa para falarem de si, de seus pequenos dramas histriônicos. Ando também com tolerância zero para covidiotas covardes trancados em suas casas com sintomas imaginários e auto-centrados, compartilhando artigos tão imbecis como eles que leem na mídia, e se julgando autoridades no assunto. Um pouco de álcool gel no córtex faria bem. Aplausos para os que têm tomado decisões mais produtivas e criativas em suas vidas nesse momento, apesar da crise.

Sobre a pessoa próxima que morreu. Era um homem extraordinário e generoso. Teve uma bela vida. Tinha 75 anos e era um atleta. Lutou corajosamente no respirador, mas chegou a sua hora. A morte também faz parte da vida. Já faz mais de quinze dias que contraí o virus e estou quase sarada. O sentido de gosto e olfato voltaram. Estou viva. Minha disposição voltou. Cozinhei um belo prato, tomei meia garrafa de vinho, e ouvi canções antigas, minha forma de lidar com a perda de um venusiano que sabia viver e gostava das boas coisas da vida. Pensei no famoso trecho de Julius Caesar, de William Shakespeare, ‘a coward dies a thousand times before his death, but the valiant taste of death but once’. 

Virna Teixeira 

FATIGUE — FLOWERING

I’ve been feeling better, without a fever for about three days. Now it’s more like a prolonged post-flu effect, with vague pains in my body and especially fatigue. I am a restless person, but I have no energy even to straighten the room where I’ve been confined. It’s a mess. I open the window, close the window. I regularly change my robes. I go to one of our bathrooms wearing a mask. For the past seven days, life has come down to this. Right now, isolation is necessary for the protection of others, and does not last forever.

I feel less anxious. I am withdrawing from social networks and the excesses of the news. Last night I fell asleep early in the middle of relaxating, and woke up around 5 AM. I watched the sun rise, and took paracetamol and a warm bath to relieve the terrible exhaustion in my body I.

I watched the Brazilian film ‘Floradas na Serra’, from 1951, directed by the Italian Leonardo Salce. A socialite from São Paulo, Lucilia (Cacilda Becker), is admitted with tuberculosis to a chic sanatorium in Campos do Jordão. The girls are pale and unhappy, despite a certain emancipated attitude. They wear wonderful slim-waisted clothing from the 50s, and live on the margins of society. The most rebellious of them smoke in secret, and one of them has a drinking problem. The film is based on a novel by Dinah Silveira de Queiroz, the second woman to occupy a seat at the Brazilian Academy of Letters. There was also a television adaptation. Dinah’s mother and grandmother had tuberculosis, and they say she was obsessed with the disease.

There is an interesting moment when Lucilia helps the doctor administer medication to one of the patients at the sanatorium. She is apprehensive about the patient’s condition. He says: “What do you expect from me? A miracle? I’m just a doctor. ” Lucilia breaks out and tries to escape back to her urban life. She waits for the train at the station bar when Bruno (Jardel Filho), a handsome man, comes in. He has the air of an intelligent predator. He orders a brandy. French. The waiter says he only has Brazilian brandy. I thought to myself, Presidente Cognac? She misses the train, things of destiny.

Bruno is a poor and ambitious writer who came to treat his tuberculosis in a public hospital in the region. Lucilia says that she too is ‘sick’. He comments, however, that she is rich, and says that he himself is ‘poor, sick, full of resentments’. The dialogue is wonderful, and still current, especially in Brazil, where the coronavirus epidemic has in a certain sense checked the great social and economic inequality in the country. But the film’s themes are of a different order: romantic-tragic, more an unhappy romance than anything else. And it is still a kind of literary documentation of tuberculosis and its treatment in Brazil.

Here in Europe it is springtime. From my window, I see flowers blooming in the street. I imagine the stories that are arising and that will arise from the midst of this pandemic, where no one is safe from change. The world is no longer, will never be exactly the same. I also think of people with serious manifestations of COVID-19 in hospitals around the world. I think of their distressed families. My symptoms are mild, the fatigue will pass, and soon I will be back at my job, and I will be fighting. Just another doctor. The philosopher Paul Preciado recently pointed out that the miracle will only really come when scientists finds the cure for the coronavirus. And so it has been with other pandemics throughout history.

Virna Teixeira

Translated by Chris Daniels

Fadiga e floradas

Estou me sentindo melhor, sem febre há uns três dias. Agora tenho mais a sensação de um efeito pós-gripal prolongado, com dores vagas no corpo e sobretudo fadiga. Eu sou uma pessoa inquieta, mas estou sem energia inclusive para arrumar meu confinamento, que está uma bagunça. Abro a janela, fecho a janela. Faço um rodízio de roupões. Vou até um dos banheiros da casa usando uma máscara. A vida nos últimos sete dias resume-se a isto. O isolamento neste momento é necessário para proteção dos outros, e não dura para sempre.

Sinto-me menos ansiosa, ando me recolhendo de redes sociais e do excesso de notícias. A noite passada adormeci cedo no meio de um relaxamento, e acordei por volta de 5h da manhã. Olhei o sol nascer, e para tirar a quebradeira do corpo tomei paracetamol e um banho morno. 

Assisti o filme brasileiro ‘Floradas na Serra’, de 1951, dirigido pelo italiano Leonardo Salce. Uma socialite de São Paulo, Lucilia (Cacilda Becker), é admitida com tuberculose num sanatório chique em Campos do Jordão. As moças são pálidas e infelizes, apesar de uma certa postura emancipada. Elas usam roupas maravilhosas dos anos 50, marcadas por cinturas delgadas, e vivem à margem da sociedade. As mais rebeldes fumam escondido, e uma tem problemas com álcool. O filme é baseado num romance de Dinah Silveira de Queiroz, segunda mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, e teve também uma adaptação para a televisão. A mãe e a avó de Dinah tiveram tuberculose, e dizem que ela era obcecada pela doença.

Há um momento interessante em que Lucilia ajuda o médico a administrar um medicamento numa das pacientes do sanatório. Ela está apreensiva com o estado da paciente. Ele diz: “O que você espera de mim? Um milagre? Eu sou apenas um médico.” Lucilia, num rompante, tenta fugir de volta para a sua vida urbana. Ela aguarda o trem no bar da estação quando entra um belo homem com ares de predador inteligente, Bruno (Jardel Filho). Ele pede um conhaque. Francês. O garçom diz que só tem conhaque nacional. Pensei comigo mesmo, conhaque Presidente? Ela perde o trem, coisas do destino. 

Bruno é um escritor pobretão e ambicioso que veio tratar a sua tuberculose num hospital público da região. Lucilia diz que também é ‘doente’. Ele comenta no entanto que ela é rica, e se diz ‘pobre, doente, cheio de ressentimentos’. Os diálogos são maravilhosos, e não deixam de ser atuais, sobretudo no Brasil, onde a epidemia por coronavírus põe em cheque a grande desigualdade social e econômica do país. Mas as questões do filme são mais romântico-trágicas, de outra ordem. Antes um romance infeliz que coisa alguma. E não deixa de ser um documento literário da tuberculose e seu tratamento no Brasil. 

Aqui na Europa é época de primavera. Vejo as flores desabrochando nas ruas pela vidraça. Imagino as histórias que surgem e surgirão no meio desta pandemia, onde ninguém está a salvo de mudanças. O mundo já não é nem será o mesmo. Penso também em pessoas com manifestações graves de Covid-19 em hospitais pelo mundo, em suas famílias aflitas. Meus sintomas são leves, a fadiga vai passar, e em breve estarei de volta, combativa no meu posto. Apenas uma médica. Como aponta uma reflexão muito recente do filósofo Paul Preciado, o milagre só virá mesmo quando a ciência descobrir a cura para o coronavírus. E assim foi com outras pandemias ao longo da história.

Virna Teixeira

Anxiety

One of the most striking things I see in this pandemic is anxiety. COVID-19 broke out abruptly, changing our lives, and bringing uncertainty. We have lost control over many things, individually and collectively, and we have to adjust to a new reality. Anxiety is the body’s response to this stress, a feeling of fear or apprehension about what is going to happen. We expect the worst, and how can we not, with so much bad news in the media, with so many political and economic issues going on?

Being infected is also having no control over what will happen. How will your body react to the virus? The disease is very recent, tests are often not available and expensive, and there is no specific treatment. Many people are afraid of dying. Many people are concerned for those close to them, especially for the elderly and vulnerable.

I received many kind messages from friends and acquaintances when I revealed that I had become infected with covid-19. I realize that I am loved, and it is a comfort. My family wants to hear the news. Some colleagues want to help, but without realizing it, they make morbid comments, or send dramatic scientific articles, or ask me why I am not using hydroxychloroquine. Yesterday I told a doctor friend that I had woken up feeling better. Angry at the country’s political moment, and frightened by the current situation, she replied that a well-known doctor had improved like me, but days later he had been intubated.

That was the last straw. I was tired of talking to so many people, listening to so many recommendations, worrying about the evolution of my symptoms. Fear of the unknown spread. I suddenly realized that my dyspnea had worsened. That my hands were cold, that I had tachycardia. I recognized my anxiety, and realized that I was on the verge of a panic attack. After all, I had no fever and my cough had improved. It wasn’t my lungs. I tried to calm down. I closed my eyes, started doing breathing exercises. I put on some relaxing music, did a little mindfulness practice. The malaise was improving.

I reflected that I have no control over what I am going through now, and that anxiety only makes the symptoms worse. What can I do if I clinically worsen, except seek help? What is the use of anticipating misfortune? I empathize with my colleagues, but many of them are more anxious than I am. I would even say that they are desperate, afflicted with their impotence in the face of this pandemic, afraid of becoming infected. I need to be calm. I get off the internet for a few hours, get distracted by other things, laugh at some silly jokes. I slept a lot, a whole lot. Rest is a holy remedy.

I woke up feeling better. I’ve had no fever for 36 hours. My mood is improving. I put on my red kimono, put on some makeup and quickly got into a virtual morning party called ‘Morning Glory’. There were five hundred people online dancing in their homes, people of all ages, wearing colorful and festive clothes. Vibrant energy. I love a party. I frlt so much better.

In the midst of this pandemic we need to take care of our mental health. We have no control over the virus, but we can take precautions, help flatten the curve, and find creative ways to be at home. Despite the alarming number of deaths, the symptoms of COVID-19, although more unpleasant for some than for others, subside after a few days. Self-isolation is not the end of the world, and when we self-isolate, we are protecting those close to us. Reducing anxiety is essential. It even makes the immune system more combative!

Virna Teixeira

Translated by Chris Daniels

Ansiedade

Uma das coisas mais marcantes que observo nesta pandemia é a ansiedade. O covid-19 irrompeu bruscamente, mudando nossas vidas e trazendo a incerteza. Perdemos o controle sobre muitas coisas, em nível individual e coletivo, e temos que nos ajustar a uma nova realidade. A ansiedade é uma resposta do corpo a este estresse, um sentimento de medo ou apreensão sobre o que vai acontecer. Ficamos à espera do pior, e como não ficar, com tantas notícias ruins na mídia, com tantas questões políticas e econômicas em curso?

Estar infectado é também não ter controle sobre o que vai acontecer. Como o seu corpo vai reagir ao virus? A doença é muito recente, os testes muitas vezes não são disponíveis e são caros, não há tratamento específico. Muita gente tem medo de morrer, tem preocupação pelas pessoas próximas, sobretudo pelos idosos e vulneráveis.

Tenho recebido muitas mensagens simpáticas de amigos e conhecidos quando revelei que tinha me infectado com o covid-19. Percebo que sou querida, é um conforto. Minha família quer saber notícias. Alguns colegas querem ajudar e sem perceber fazem comentários mórbidos, ou mandam artigos científicos dramáticos, ou questionam porque não estou usando hidroxicloroquina. Ontem comentei com uma amiga médica que tinha acordado melhor. Ela, com raiva do momento politico do país, e assustada com a situação atual, respondeu que um médico conhecido tinha melhorado como eu, e dias depois tinha sido intubado.

Eu já estava cansada de falar com tanta gente, de ouvir tantas recomendações, de me preocupar com a evolução meus sintomas, e aquilo foi a gota d’água. A sensação de medo do desconhecido foi se alastrando. De repente percebi que minha dispnéia tinha piorado. Que as minhas mãos estavam frias, que estava com taquicardia. Reconheci minha ansiedade, percebi que estava à beira de um ataque de pânico. Afinal estava sem febre e minha tosse tinha melhorado. Não era o pulmão. Tentei me acalmar. Fechei os olhos, comecei a fazer exercícios respiratórios. Coloquei uma música relaxante, fiz um pouco de mindfulness. O mal estar foi melhorando.

Refleti que não tenho controle algum sobre o que estou passando agora, e que a ansiedade só torna os sintomas piores. Que posso eu fazer se eu tiver uma piora clínica, senão procurar ajuda? Que adianta antecipar desgraça? Tenho empatia pelos meus colegas, mas muitos deles estão mais ansiosos que eu. Eu diria desesperados, aflitos com a sua impotência diante desta pandemia, com medo de se infectar. É preciso calma. Sai da internet por umas horas, me distrai com outras coisas, ri de algumas piadas bobas. Dormi bastante. O repouso é um santo remédio.

Acordei me sentindo melhor, e estou há 36 horas sem febre. Minha disposição está voltando. Coloquei meu kimono vermelho, passei um pouco de maquiagem e entrei rapidamente numa festa virtual hoje de manhã, chamada ‘Morning Glory’. Havia quinhentas pessoas online dançando nas suas casas, gente de todas as idades, usando roupas coloridas e festivas. Uma energia vibrante. Eu adoro uma festa. Melhorou meu humor.

No meio desta pandemia é preciso cuidar nossa da saúde mental. Não temos controle sobre o virus, mas podemos tomar precauções, ajudar a achatar a curva, e arrumar formas criativas de estar em casa. Apesar do assustador número de mortos, os sintomas de covid-19, embora mais desagradáveis para uns que para outros, passam após alguns dias. O auto-isolamento não é o fim do mundo, estamos protegendo as pessoas próximas. E reduzir a ansiedade é essencial, torna inclusive o sistema imunológico mais combativo!

Virna Teixeira