Fadiga e floradas

Estou me sentindo melhor, sem febre há uns três dias. Agora tenho mais a sensação de um efeito pós-gripal prolongado, com dores vagas no corpo e sobretudo fadiga. Eu sou uma pessoa inquieta, mas estou sem energia inclusive para arrumar meu confinamento, que está uma bagunça. Abro a janela, fecho a janela. Faço um rodízio de roupões. Vou até um dos banheiros da casa usando uma máscara. A vida nos últimos sete dias resume-se a isto. O isolamento neste momento é necessário para proteção dos outros, e não dura para sempre.

Sinto-me menos ansiosa, ando me recolhendo de redes sociais e do excesso de notícias. A noite passada adormeci cedo no meio de um relaxamento, e acordei por volta de 5h da manhã. Olhei o sol nascer, e para tirar a quebradeira do corpo tomei paracetamol e um banho morno. 

Assisti o filme brasileiro ‘Floradas na Serra’, de 1951, dirigido pelo italiano Leonardo Salce. Uma socialite de São Paulo, Lucilia (Cacilda Becker), é admitida com tuberculose num sanatório chique em Campos do Jordão. As moças são pálidas e infelizes, apesar de uma certa postura emancipada. Elas usam roupas maravilhosas dos anos 50, marcadas por cinturas delgadas, e vivem à margem da sociedade. As mais rebeldes fumam escondido, e uma tem problemas com álcool. O filme é baseado num romance de Dinah Silveira de Queiroz, segunda mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, e teve também uma adaptação para a televisão. A mãe e a avó de Dinah tiveram tuberculose, e dizem que ela era obcecada pela doença.

Há um momento interessante em que Lucilia ajuda o médico a administrar um medicamento numa das pacientes do sanatório. Ela está apreensiva com o estado da paciente. Ele diz: “O que você espera de mim? Um milagre? Eu sou apenas um médico.” Lucilia, num rompante, tenta fugir de volta para a sua vida urbana. Ela aguarda o trem no bar da estação quando entra um belo homem com ares de predador inteligente, Bruno (Jardel Filho). Ele pede um conhaque. Francês. O garçom diz que só tem conhaque nacional. Pensei comigo mesmo, conhaque Presidente? Ela perde o trem, coisas do destino. 

Bruno é um escritor pobretão e ambicioso que veio tratar a sua tuberculose num hospital público da região. Lucilia diz que também é ‘doente’. Ele comenta no entanto que ela é rica, e se diz ‘pobre, doente, cheio de ressentimentos’. Os diálogos são maravilhosos, e não deixam de ser atuais, sobretudo no Brasil, onde a epidemia por coronavírus põe em cheque a grande desigualdade social e econômica do país. Mas as questões do filme são mais romântico-trágicas, de outra ordem. Antes um romance infeliz que coisa alguma. E não deixa de ser um documento literário da tuberculose e seu tratamento no Brasil. 

Aqui na Europa é época de primavera. Vejo as flores desabrochando nas ruas pela vidraça. Imagino as histórias que surgem e surgirão no meio desta pandemia, onde ninguém está a salvo de mudanças. O mundo já não é nem será o mesmo. Penso também em pessoas com manifestações graves de Covid-19 em hospitais pelo mundo, em suas famílias aflitas. Meus sintomas são leves, a fadiga vai passar, e em breve estarei de volta, combativa no meu posto. Apenas uma médica. Como aponta uma reflexão muito recente do filósofo Paul Preciado, o milagre só virá mesmo quando a ciência descobrir a cura para o coronavírus. E assim foi com outras pandemias ao longo da história.

Virna Teixeira